
Excia Presidente do PN
Excia Vice-Ministro dos Assuntos Parlamentares
Ilustres deputados
E o Amado povo de Timor-Leste;
No âmbito da celebração do dia mundial da língua portuguêsa em Timor-Leste, gostaria de apresentar os meus votos de congratulação a todos os Timorense na celebração da semana da língua portuguesa, uma língua que nos une com os nossos irmãos da CPLP. Com a longa caminhada da existência desta língua, hoje Timor-Leste foi reconhecida como um país independente e soberano. Durante 24 anos, os timorenses resistiram a ocupação indonésia, tendo reconquistado a sua independência após o referendo de 1999, sob os auspicios da ONU.
Permite-me a revelar alguns importantíssimos factos na jornada da língua portuguesa durante o período da invasão. Em 1975, após a invasão, a língua portuguêsa foi proibida e perseguida, tendo sido desenvolvido um esforço notável maciço para indonesiar a sociedade timorense, atravéz do sistema educativo e da imposição da lingua indonésia em todos os domínios. A exceção foi o Externato de São José (ESJ), uma escola que, a partir de 1976, teve todo o seu ensino em língua Portuguêsa, contra as orientações oficiais indonésias e até ser encerrada forçadamente em 1992.
Menos de um ano após a invasão, dois padres Timorenses, Leão da Costa e Domingos da Cunha, percebendo que a violência não seria apenas física, mas também psicológica e cultural, decidiram avançar com uma escola com o objectivo de mantêr viva a língua portuguesa, a língua que a nossa resisténcia e os pais fundadores já haviam escolhido para língua oficial, e que todos os partidos políticos em 1975 escolhiam como língua de coesão e de acesso, a cultura e ao conhecimento. Entretanto, as autoridades indonésias começaram a implementar mecanismos de indonesiação da sociedade timorense, pois sabiam que a língua e a cultura, são pilares essenciais da identidade cultural de cada povo, da sua soberania. Foi por isso que o regime invasor procurou anular a importância que a língua portuguêsa tinha e procurou que todos falassem em indonésio. Durante estes períodos, os Padres Leão da Costa e Domingos da Cunha, apoiados numa comunidade que partilhava os mesmos objectivos, e com o apoio dos padres jesuítas portuguêses João Felguêiras e José Alves Martins, decidiram correr todos os riscos para abrir uma escola que ensinava em língua portuguêsa mas tinha currículo aberto ao mundo, para formar timorenses conscientes da sua identidade e do seu lugar no mundo. Rejeitaram o currículo oficial obrigatório indonésio, que era mais restritivo, assente na promoção da história do invasor e da sua língua, para oferecer um currículo universalista, com o ensino da história universal e de várias linguas internacionais, como inglês, italiano, francês, alemão, espanhól, até grego e latim e um ensino forte da filosofia.
A escola, ao formar, entre 1976 e 1992, uma nova geração que dominava a língua portuguêsa com mestria, contribuiu para ligar aqueles que foram educados antes da invasão, nomeadamente os guerrilheiros que constituíam a Resistência nas montanhas e matas de Timor (a Frente Armada), aqueles que tinham saído do território e na diáspora organizaram a Frente Diplomática, e aqueles que agora viviam subjugados pelo invasor, mas sempre resistindo. Com a Frente Clandestina, ligou todos os timorenses com o propósito da independência, para a qual é importante a afirmação da nossa língua portuguesa, provando que ela não era algo do passado, mas um fator de união e de diferenciação na região, de soberania. Inspirados não só pelos dois reverendíssimos Padres e dois missionários Portuguêses, mas também pelas nossas famílias, pelos nossos guerrilheiros no mato, com um testemunho forte da união dos timorenses e do seu direito a dignidade e à autodeterminação.
Os principais movimentos clandestinos afirmando os seus compromissos pela libertação da pátria, comprovando atravéz de manifestações de descontentamento como; à frente ao Papa João Paulo II e 12 de Novembro de 1991, que acabou na violência do Massacre de Santa Cruz, e colocou a opinião pública mundial a favor da causa timorense, nasceram no Externato de São José. Em 1992, após o referido massacre, as autoridades usaram argumento de que os agitadores contra a Indonésia eram alunos e professores da escola, para a fechar e a igreja teve de ceder. Embora sobreviveu sem apoios externos, sem livros em português, sem formação de professores, não têm dúvidas sobre a importância da língua portuguêsa para a independência. E mais, muitos que tornaram-se empenhados na construção de uma pátria livre, solidária e justa para todos os timorenses.
Há uma têse de doutoramento defendida na Universidade de Aveiro em Portugal, por um antigo ativista da independência de Timor-Leste, o Doutor Ângelo Ferreira, que prova isto que referí, e muito mais sobre a importância da língua portuguesa e a importância do Externato de São José na sua preservação em Timor-Leste. Espera-se que a têse do Doutor Ângelo Ferreira venha a ser publicada em breve em Timor e Portugal. O investigador na sua têse, concluíu que o Externato de São José foi a quarta frente da Resistência Timorense, a Frente Cultural, tendo sido determinante para salvar a língua portuguêsa em Timor-Leste e uma identidade distintiva na região, uma identidade única, que faz do povo timorense um povo único, soberano, independente.
Hoje, a língua portuguêsa continua a ser promovida no setor da educação, nos trabalhos, no comercio, e no desenvolvimento do país como uma parte da cultura Timorense. Mais de 20 anos pós a restauração da independência, Timor-Leste precisa de uma refleção crítica sobre os dezafios da existência da língua portuguêsa no país. Considerado como uma língua intermediário que liga os Timorenses a ter a ligação a Europa, muitos dos nossos jovens deixaram o país em busca do trabalho condigno, onde o ponto de entrada à Europa é Portugal. Na educação, muitos dos jovens decidiram continuar seus estudos e aperfeiçõar esta língua, inscreverem nas universidades e muitos até conseguiram concluir até o nível de Doutoramento. Isto significa que esta língua continua a desenvolver progressivamente no setor de educação, e esperemos que os Timorenses de capacidade elevada são comprometidos em continuar a promover a língua portuguêsa para as gerações vindouras. Parabéns pelo Dia Mundial da Língua Portuguêsa. Obrigada!